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Bono, o cachorro que voltou dos mortos.

O Bono nasceu no meio de 2012, em meados de agosto. Chegou anunciando o fim do mundo, mesmo. Eu conheci ele desde muito filhote, desde aquela época em que você não distingue nenhum deles direito. Posso até dizer que o conheci desde a barriga da sua mãe, pois estava na festa junina que ocorria na Forquilha no dia em que a Rita chegou da rua, prenha – ainda sem que ninguém soubesse desse fato. Ele tinha outros irmãos e irmãs, todos e todas com características peculiares. Os nomes começaram a surgir aos poucos: tinham dois Galaks, brancos como o chocolate de mesmo nome, mas obviamente encardidos pela terra. Ninguém imaginava o porquê de serem dessa cor, já que a mãe era preta, tampouco conseguíamos diferenciá-los com precisão. Tinha o Cagado, que levava esse nome por ter carregado no pêlo uma crosta da mais formosa bosta por aproximadamente um mês – todo mundo sabe, não se pode dar banho em filhotes tão novos; logo, a crosta ficou. Tinha a Menina, que foi batizada assim pois a Menina era a única Menina da ninhada. O Stuart, gêmeo de pêlo da menina, que se chamava assim por ser o menor da ninhada e, segundo o Coutinho, esse nome fazia referência ao Stuart Little. O Rito tinha o nome da mãe – Rita -, de quem era uma cópia cuspida e escarrada, flexionado para o gênero masculino. E tinha o Bono, que levava esse nome pois seu pêlo era preto-amarronzado – tal qual uma bolacha Bono.

Rita, com a melhor expressão que se pode ter após dar à luz a 7 crias.

Rita, com a melhor expressão que se pode ter após dar à luz a 7 crias.

Depois que eu o conheci, calhou de tornarmo-nos colegas de república em setembro de 2012. Ele ainda era bastante filhote, indistinguível dos irmãos e irmãs, como eu disse, e eu tinha meu próprio filho – o Chico, então com 6 meses. Além do Chico e do Bono – com seus seis irmãos e irmãs -, havia a Luna, uma pastora que a dona da casa que estávamos alugando deixou pra trás, e a Rita, mãe da ninhada toda – que um dia chegou da rua, prenha, e ficou (mas essa já é outra história). Éramos em dez cachorros e cinco humanos – mais um canil que uma república, portanto. Fazíamos escalas pra cuidar dos filhotes – alimentar, limpar a tonelada de merda que faziam por hora, brincar, etc. Além disso, todos começaram a ficar doentes. Apesar de vermifugados, pegaram verme, e a caganeira aumentou. Se tem uma coisa que filhote faz é merda, literalmente. Todos foram internados, e as únicas a passarem incólumes à verminose foram a Luna e a Rita – até o Chico foi internado.

 

Esse período coincidiu com eles completando dois meses de idade – podíamos, enfim, doá-los. O que não significava que existiam adotantes pra recebê-los. Por alguma razão, as pessoas fazem filas quilométricas pra pagar R$ 2 mil em um filhote de shih-tzu ou yorkshire, mas não querem vira-latas nem de graça. Foi muito trabalhoso conseguir quem adotasse os filhotes – não vou nem dizer que os primeiros a sair foram os Galaks pra não acusar ninguém inadvertidamente de racismo. O Bono não foi o último. Foi adotado por um colega do Coutinho, pai da Rita. Mais tarde, esse colega brigou com a mãe, saiu de casa e, como ia morar em apartamento, resolveu que seria tranquilo devolvê-lo. A sorte é que a devolução era pro nosso canil, né?

Se é difícil doar filhote vira-lata novinho, é dez vezes mais difícil doar filhote vira-lata crescido. E como o Bono cresceu. Com 4 ou 5 meses, já era maior que o Chico e a Rita, perdendo só pra Luna (que era uma pastora, então não era exatamente uma derrota). Ele foi ficando, apesar de continuarmos tentando doá-lo. Ele e o Chico viraram melhores amigos bem rápido, até porque a Rita e a Luna estavam envolvidas nas tretas particulares das duas (na verdade, havia um triângulo amoroso bem constituído entre os cães jerivenhos, onde Luna amava Chico, que amava Rita, que não amava ninguém – o Bono era o moleque que acompanhava as histórias dos adultos).

 

A principal travessura da dupla Bono e Chico era fugir. A Rita também fugia sempre, e, se não me falha a memória, ela inaugurou as puladas de cerca literais para dar um rolê em uma prainha do lago ali por perto (com outra família, mas isso já é outra história). Saíam sempre que podiam – a cerca, toda esburacada, não impunha resistência alguma -, passavam o dia fora, e voltavam à noite. Geralmente, a fuga era puxada pelo Chico. Eu saía com o carro, e ele, desesperado, arranjava um buraco na cerca para passar e saía correndo atrás de mim. O Bono vinha no encalço. Em um dos dias, eu estava saindo para uma entrevista de emprego de garçom, e quando olhei pelo retrovisor, vi o Chico desembestado me seguindo. Parei o carro, coloquei ele dentro, e procurei o Bono – ele sempre estava junto. Nesse dia, não o vi. Voltei, prendi o Chico e, como tinha a tal entrevista, não me dei ao trabalho de checar se o Bono estava mesmo em casa.

Voltei por volta das 11h da manhã. Quando cheguei, procurei pelo Bono e não o encontrei. Nessas horas, já começávamos o protocolo – afinal, todos, com exceção da Luna, já tinham sumido várias vezes, e adquirimos uma expertise. Primeiro, dar uma volta de carro bem devagar pelas ruas de terra do bairro, gritando pelo cachorro sumido. Depois, pegávamos a Luna e saíamos com ela na coleira – se o cachorro fujão estivesse em um dos matagais por perto, era mais fácil que ela o encontrasse do que nós (essa é uma ressalva a ser feita: o Núcleo Rural Jerivá, como o nome diz, é rural, e só tinha mato nas cercanias da nossa casa – além de duas rodovias, o que aumentava nossa preocupação sempre que um dos cachorros fugia).

Cumprido esse protocolo, se não o tivéssemos achado, esperávamos mais um pouco e recomeçávamos do zero. Me lembro de ter feito isso umas duas vezes sozinho, pois não tinha ninguém em casa ainda. Depois, à medida que o pessoal ia chegando em casa, íamos nos dividindo pra ampliar as chances de encontrá-lo. Quando tínhamos repetido essa sequência umas seis ou sete vezes, só restava esperar que o cachorro voltasse – fedendo à merda que seja, como o Chico fez uma vez. Até lá, íamos compartilhando pedidos de ajuda no Facebook, imprimindo cartazes para espalhar pelo bairro, entre outras coisas.

Já era noite, e o Bono não tinha aparecido. Eu estava bebendo cerveja em casa, e lá também estavam o Diogo, a Júlia e a Ana. O Coutinho tinha acabado de sair para a casa da Gabi, sua namorada na época, que era relativamente próxima de onde morávamos. Então o Diogo recebeu uma ligação: era o Coutinho avisando que havia passado pela rodovia da Torre de TV digital, e tinha encontrado o Bono – atropelado. A gente ficou sem chão. Ainda acreditávamos que o Bono só estava dando um rolê e voltaria em breve. Me lembro que o Diogo deu um grito bem alto de desespero. Fomos, eu e ele, chorando, ao encontro do Coutinho, levando uma pá e uma enxada. Tínhamos que pelo menos enterrar o Bono.

A rodovia, que liga o Paranoá e o Itapoã à Sobradinho, não tem iluminação alguma na maior parte da sua extensão. No breu, só víamos o que os faróis dos carros iluminavam. Paramos os dois carros de modo que conseguíssemos ver o corpo do Bono estirado no meio da rodovia. Acho que ficamos um tempo ali, sem acreditar que tivéssemos que ter uma sorte tão ruim quanto aquela. Os cachorros fugiam tanto, e nós antecipamos tantas vezes que aquilo aconteceria que, em determinado momento, e como tudo dava certo sempre, deixamos de acreditar que fosse possível que aquilo acontecesse de fato. Mas aconteceu, estávamos diante do cadáver do Bono.

O Coutinho começou a cavar a cova. Eu peguei a cabeça dele, e olhei bem: o formato da cabeça, a cor do pêlo e o formato da manchinha branca no peito – era o Bono. Não havia chance pra engano, era o Bono. A gente revezou, entre lágrimas, para cavar o buraco. Teve uma hora que as enxadadas começaram a ser de raiva, mesmo. O Diogo murmurava “desculpa, desculpa”. A culpa era nossa, mesmo. Merda!

Terminamos, colocamos o Bono na cova, e tampamos com terra. Marcamos o lugar com dois gravetinhos, que claramente não aguentariam nem meia rajada de vento dos carros e caminhões que passavam por ali. O Coutinho seguiu para Sobradinho, e eu e o Diogo voltamos para casa.

Era 18 de dezembro de 2012. Como eu não sou de Brasília, eu iria visitar minha mãe e minha avó em Miguelópolis dali a pouco para as festas de fim de ano. De tão assustado que eu estava, resolvi meter o Chico no carro – justo ele, que não pode andar três quarteirões sem enjoar e vomitar no banco – e levá-lo comigo para lá (acabou sendo a primeira viagem da vida dele). Todo mundo ficou muito chocado com a morte do Bono – uma vida tão curta e tão triste.

Passado o Natal – e o fim do mundo maia, marcado para o dia 21/12/2012 -, era dia 26 de dezembro, e eu estava na casa da minha avó, em Miguelópolis. Às 20h27, o Coutinho compartilhou no Facebook a foto de um cachorro com cara de paspalho e olhos amarelos, subscrita com a legenda: “Olha quem resolveu voltar pra casa infestado de carrapatos e de coleira nova!!!!”. Como eu dava o Bono como morto, achei que o Coutinho tinha aceitado que outro adotante de algum dos filhotes devolvesse outro cachorro. Ele era muito parecido com todos os irmãos e irmãs, afinal. Perguntei, nos comentários da foto: “Como assim?”, pronto para ficar revoltado. O Coutinho respondeu que aparentemente havíamos enterrado um cachorro IGUAL – EU TINHA OLHADO PRA CARA DELE, PORRA – ao Bono no dia 18, e que quando ele chegou em casa, estavam Rita e Bono brincando na varanda de casa.

Dia da volta do bono

voltei, risos

Foi aí que decidimos ficar com ele de vez. A despeito de ele ter morrido, ido ao além e voltado – com os olhos de demônio ainda mais amarelados e o olhar condescendente de quem viu nosso nome na lista do inferno -, decidimos ficar com ele. O nosso milagre demoníaco de Natal – e do fim do mundo. Nunca fomos confirmar se a cova que cavamos ainda sepultava um cachorro. Achamos melhor acreditar que o cachorro morto na noite do dia 18 – três dias antes do fim do mundo – era, de fato, só muito parecido com o Bono. Ou talvez achamos melhor não ir até a beira daquela rodovia só para ver aquela cova revirada e vazia, confirmando o rolê do Bono no além. Hoje, ele mora com o Coutinho – o cara que gostava de interpretar Judas nas peças infantis da escola. Mas isso já é outra história.

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Do povo buscamos a força*

*Agostinho Neto

Não basta que seja pura e justa
a nossa causa,
é necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

Dos que vieram
e conosco se aliaram,
muitos traziam sombras no olhar,
intenções estranhas.

Para alguns deles, a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo,
centrado e surdo,
como uma lança.

Para alguns outros, era uma bolsa.
Bolsa vazia (queriam enchê-la).
Queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.

Outros viemos.
Lutar, para nós, é ver aquilo
que o Povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É sermos livres pra trabalhar.
É ter pra nós o que criamos.
Lutar pra nós é um destino –
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.
Na mesma barca nos encontramos
Todos concordam – vamos lutar.

Lutar pra quê?
Pra dar vazão ao ódio antigo?
ou pra ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos
Quem há-de ser o timoneiro?
Ah, as tramas que eles teceram!
Ah, as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão.

Inexoravelmente,
como uma onda que ninguém trava,
vencemos.
O Povo tomou a direção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa,
é necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

Carolina

Carolina Maria de Jesus era de Sacramento, Minas Gerais. Seu livro mais conhecido foi “Quarto de Despejo”, diário que escrevia enquanto morava na favela Canindé, em São Paulo (o que nunca lhe agradou muito, queria ser lida para além da miséria). Foi “descoberta” por um jornalista, branco, que ficou impressionado que uma mulher negra e favelada escrevesse tão bem. Carolina é o retrato de barreiras que, mesmo quando rompidas, tendem a reforçar as expectativas que se constroem sobre favelas, pobreza e pessoas pretas. A romantização da pobreza, que cria safáris turísticos na favela e alimenta a compaixão cristã e caridosa de gente branca e rica, ao mesmo tempo em que pereniza o lugar de exclusão dessas pessoas. Essa caridade que emudece o outro e só se interessa por aquilo que quer ouvir. Carolina morreu em 1977, desiludida com o próprio sucesso. Ao menos, dizia ela, conseguiu ter uma casa de alvenaria.
Aqui tem alguns poemas da obra dela, menos conhecidos que seu retrato cru da vida na favela e da vida de fome (que também tem que ser conhecido, mas que não pode se esquecer da Carolina que queria ser uma flor).

    
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”. São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160.
 

§

Quarto de despejo

Quando infiltrei na literatura

Sonhava so com a ventura

Minhalma estava chêia de hianto

Eu nao previa o pranto. Ao publicar o Quarto de Despejo

Concretisava assim o meu desejo.

Que vida. Que alegria.

E agora… Casa de alvenaria.

Outro livro que vae circular

As tristêsas vão duplicar.

Os que pedem para eu auxiliar

A concretisar os teus desejos

Penso: eu devia publicar…

– o ‘Quarto de Despejo’.
No início vêio adimiração

O meu nome circulou a Nação.

Surgiu uma escritora favelada.

Chama: Carolina Maria de Jesus.

E as obras que ela produz
Deixou a humanidade habismada

No início eu fiquei confusa.

Parece que estava oclusa

Num estôjo de marfim.

Eu era solicitada

Era bajulada.

Como um querubim.
Depôis começaram a me invejar.

Dizia: você, deve dar

Os teus bens, para um assilo

Os que assim me falava

Não pensava.

Nos meus filhos.

    

 

§
A Rosa
Eu sou a flor mais formosa

Disse a rosa

Vaidosa!

Sou a musa do poeta.
Por todos su contemplada

E adorada.
A rainha predileta.

Minhas pétalas aveludadas

São perfumadas

E acariciadas.
Que aroma rescendente:

Para que me serve esta essência,

Se a existência

Não me é concernente…
Quando surgem as rajadas

Sou desfolhada

Espalhada

Minha vida é um segundo.

Transitivo é meu viver

De ser…

A flor rainha do mundo.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
§
Dá-me as rosas

No campo em que eu repousar

Solitária e tenebrosa

Eu vos peço para adornar

O meu jazigo com as rosas
As flores são formosas

Aos olhos de um poeta

Dentre todas são as rosas

A minha flor predileta
Se a afeiçoares aos versos inocentes

Que deixo escritos aqui

E quiseres ofertar-me um presente

Dá-me as rosas que pedi
Agradeço-lhe com fervor

Desde já o meu obrigado

Se me levares esta flor

No dia dos finados.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996, p.169
§
Humanidade
Depôis de conhecer a humanidade

suas perversidades

suas ambições

Eu fui envelhecendo

E perdendo

as ilusões

o que predomina é a

maldade

porque a bondade:

Ninguem pratica

Humanidade ambiciosa

E gananciosa

Que quer ficar rica!

Quando eu morrer…

Não quero renascer

é horrivel, suportar a humanidade

Que tem aparência nobre

Que encobre

As pesimas qualidades
Notei que o ente humano

É perverso, é tirano

Egoista interesseiros

Mas trata com cortêzia

Mas tudo é ipocresia

São rudes, e trapaçêiros

– Carolina Maria de Jesus, em “Meu estranho diário”. São Paulo: Xamã, 1996. (grafia original)

Muitas fugiam ao me ver… 
Muitas fugiam ao me ver

Pensando que eu não percebia

Outras pediam pra ler

Os versos que eu escrevia
Era papel que eu catava

Para custear o meu viver

E no lixo eu encontrava livros para ler

Quantas coisas eu quiz fazer

Fui tolhida pelo preconceito

Se eu extinguir quero renascer

Num país que predomina o preto
Adeus! Adeus, eu vou morrer!

E deixo esses versos ao meu país

Se é que temos o direito de renascer

Quero um lugar, onde o preto é feliz.”

A vida é isso mesmo, e muito mais

Eu vou morrer.

A bem da verdade, todo mundo vai, de maneira que a minha morte não tem, em si, qualquer importância especial no esquema geral do universo. Mas é só pra mim que essa morte como experiência específica e não como evento abstrato ganha concretude, é só pra mim que ela não pode ser idealizada como passagem ou transição, e é só em mim que se sente a imanência do meu próprio fim (és tudo pra ti, pois é a ti que te sentes, diria o português).

Posso morrer do coração, causa mortis banal e corriqueira. Basta que em uma das veias ou artérias que afogam e desafogam o coração (ou metade de uma, dado um certo espaço de tempo) se deposite um apanhado de algumas das gorduras ou do cálcio que ingeri durante a vida. Existem gorduras de dois tipos (quiséramos fossem só dois, mas como esse não é um texto acadêmico sobre biologia, me concedo a licença). As do primeiro tipo vêm das permissões que fiz a mim mesmo, das micro-alegrias culinárias, do arrefecer dos parâmetros e da auto-exigência. As do segundo tipo vêm da culpa por tudo isso, e da culpa por tudo além disso; vêm do desgosto, da contrariedade, da saudade e da excitação. Tudo ali, naquele êmbolo fatal que me apaga as luzes.

Posso morrer dos pulmões, também populares ceifadores dos sujeitos a quem antes garantiam alento. Basta que os cigarros que fumei, ou a fumaça dos carros e caminhões que por mim passaram (ou até os cigarros que não fumei e os carros e caminhões que passaram longe de mim!) lentamente aliciem meus pulmões, como me castigando por escolher não respirar. Basta que os compostos mutagênicos presentes no ar (qualquer ar) seduzam meu DNA e o convença de que ele se daria muito melhor sendo ele mesmo, e não um arremedo condenado a existir em relação de submissão a um coletivo opressor e homogeneizador, guiado por uma vontade alheia à dele próprio (será alheia?). O câncer é a liberdade do DNA das minhas células pulmonares, antes coagido a cumprir as expectativas externas investidas nele. A célula se liberta de mim para ser qualquer coisa diferente do que é, e não o que esperavam que ela fosse, ainda que isso signifique o nosso suposto fim conjunto.

Posso morrer do fígado, suposto responsável por retirar aquilo que eu, advertida ou inadvertidamente, tento assimilar a mim mesmo (e que não é assimilável, como posso não saber?). Posso desgastá-lo pela minha insistência em ir ter com o álcool, pela teimosia em chamar a gordura à baila, pela obsessão com anti-inflamatórios, antidepressivos, barbitúricos, analgésicos…

Chega uma hora que tudo chega. Ao corporificar minha existência, a matéria que me compõe deixa de ser de maneira plena qualquer outra coisa que pudesse ser (e que seria, invariavelmente, se eu não existisse enquanto eu mesmo), ao mesmo tempo em que continua podendo ser uma infinidade de coisas além de mim (e o que é você, a decisão de fumar ou o câncer de pulmão?). O devir está sempre contido no ser, e nós somos o que fomos, o que somos, o que seremos e o que não pudemos ser, simultaneamente. Cada parte de você, se é que podemos chamar você de você a essa altura, está contida no seu todo apenas por um lado de sua própria existência, enquanto todos os outros lhe escapam. A vida é sempre apenas uma das possibilidades.

Não me assusta morrer, embora eu queira ficar vivo (privilégios da matéria dotada de intenção). No fim de tudo, a morte é o excesso de vida, e não é de uma vez que se morre, diria Mário Quintana (todas as horas são extremas!). Se morre do acúmulo de experiências de todos os tipos de ordem e nível. Se morre pelo excesso de nós mesmos, pelo excesso do que fomos. Se morre também pelo excesso do que podemos ser, pela multiplicidade infinita de variações que aquilo que nos compõe (seja de qual ordem for) é capaz de produzir. Lógico, as mortes violentas sempre estão em pauta, e o imponderável caminha ao nosso lado ao longo de toda vida. Mas qual morte é pacífica? E o que é ponderável, para que se chame imponderável qualquer coisa específica?

A matéria se libertará de nós, e não o contrário. “Nós” somos diques que represam por um instante (único, peculiar, instigante) aquilo que poderia ser, e eventualmente será, qualquer coisa além de nós. A morte é banal, a vida não. É a coisa mais maluca que jamais veremos.

2017

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte.
Porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte.
E tenho comigo pensado “deus é brasileiro, e anda do meu lado”
E, assim, já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

 

bsbazul

 

Quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo, afasto o que não conheço

E quem vem de outro sonho feliz de cidade aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso…

Sigo en pie*

*Mario Benedetti

 

 

Sigo em pie por amor, por cosas mías
Con buena edad para cambiar, sereno,
Para enfrentarme ante el espejo, ameno
Y entrar a averiguar mis alegrías

Sigo en pie por razones, por mis guías,
Por decirme que el mundo no es ajeno
Y que no hay que pedir un vistobueno
Para uno celebrar sus cumpledías

Los versos tienen hoy los ojos fijos,
Los sueños el gemidos de otros sueños,
Las palabras de amor, nuevos prefijos,

Los latidos suenan de otra manera,
Pero no te preocupes de estos dueños
porque yo sigo em pie hasta que muera.