Sobre empatia

Eu imaginava começar esse texto com “há um ano, Israel iniciava seu bombardeio intensivo a uma cidade sitiada, isolada e parcamente armada, de população majoritariamente civil”. Mas expor o problema dessa forma seria amputá-lo de sua real dimensão – afinal, bombardeios e ataques têm completado aniversários na Palestina desde 1948, e até antes, se você considerar os grupos terroristas judeus (como o Hanagá e o Irgun). Eles se incumbiam de abrir caminho para o sionismo antes mesmo da fundação do Estado de Israel, matando e expulsando árabes de suas terras (mesmo que fossem árabes-judeus), e posteriormente dominariam a política israelense através do Likud, partido da direita israelense.

A operação “Margem de Segurança”, de 2014, durou 50 dias, e expôs numa escala inédita o sadismo israelense. A repercussão do número de civis palestinos mortos, 2.150, e em especial o de crianças mortas, 550, foi impossível de ser contida por qualquer lobby sionista. As redes sociais se inundaram com fotos e vídeos, declarações de solidariedade, pedidos de explicação à Israel, obviamente ignorados e respondidos com tergiversações. Grupos midiáticos notoriamente influenciados por lobbys sionistas não puderam deixar de mostrar o desequilíbrio monstruoso do número de mortos palestinos e israelenses (especialmente os civis), nem a frieza da sociedade israelense, que municiava-se de cadeiras de praia para assistir – e comemorar – enquanto a Força Aérea Israelense fazia bombas choverem sobre a Cidade de Gaza. Foi o maior massacre desde 1967, quando da Guerra dos Seis Dias.

A cidade, de onde ninguém entra ou sai há 8 anos (nem mesmo comboios de ajuda humanitária), teve 38 mil moradias severamente danificadas e 17 mil destruídas, deixando 100 mil pessoas desabrigadas. 216 escolas foram total ou completamente destruídas, e 58 hospitais ou postos de saúde derrubados ou atingidos parcialmente por bombardeios (apenas um hospital funciona em Gaza atualmente, atendendo a uma população de 1,8 milhão de pessoas). Além disso, a única usina de energia de Gaza foi severamente danificada pelo exército israelense, deixando a cidade no escuro. Sem comida, teto, luz, atendimento médico, remédios, sem dignidade, a Faixa de Gaza se transformou, ao longo do nosso período de vida, no maior campo de concentração da história da humanidade. Porque escolas e hospitais estavam na linha de tiro das Forças de Defesa Israelenses? Você pode usar as explicações oficiais ou o depoimento de ex-soldados israelenses para responder.

Escola em Gaza

Manar, de 11 anos, e colegas da escola. A volta às em Gaza seis meses após os bombardeios. (Foto: Anas al Baba/OXFAM, Janeiro de 2015)

O absurdo de 2014 ainda continua visível, seja através das práticas do governo e da sociedade israelenses, seja através do rastro de destruição deixado em Gaza e ainda não apagado. A reconstrução caminha a passos de tartaruga, e a empatia internacional despertada à época, desapareceu.  Após a comunidade internacional ter condenado veementemente a truculência de Israel nos ataques, prometeu-se uma ajuda financeira equivalente a US$ 3 bilhões. Um ano depois, apenas 30% dessa ajuda foi efetivamente doada, segundo a UNRWA (Agência das Nações Unidas para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo). Máquinas e ajuda humanitária são constantemente impedidos por Israel de entrar, como dissemos acima.

Somos tão cínicos que boicotamos o Hamas (e a população de Gaza, em consequência), e nada fazemos quando Benjamin Netanyahu, o executor desse e de outros massacres, é reeleito em Israel junto a correligionários que advogam a extinção do povo árabe-palestino. Mais: prometemos ajudar os palestinos a reconstruir suas vidas após devastação israelense apenas como estratégia de relações públicas. Somos tão hipócritas, que fechamos os olhos para os desmandos colonizadores dos israelenses sob a justificativa de que eles elegeram representantes com os quais não queremos dialogar (e já fazíamos antes mesmo da eleição do Hamas). Somos repulsivos a ponto de negar a influência que temos no tempo histórico presente para influenciar nessa situação (muitas vezes negando a sua existência), dando de ombros para o que fazemos com qualquer população que consideramos “removíveis, silenciosas e politicamente neutras” (SAID, Edward, 1992). Neutras até estarem em nosso caminho.

“Mate todos os árabes”, pichação feita por colonos judeus no portão da garagem de uma família árabe em Al-Khalil/Hebron

Um bom exemplo disso é o quão pequena é a adesão à campanha de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel em terras tupiniquins. A maioria, na realidade, não faz ideia do que se trata, ou, se faz, acha “desproporcional”. A campanha, cujas articulações políticas começaram a ser feitas em 2002, parte de um pressuposto muito simples: a intenção colonizadora e genocida de Israel direcionada à população árabe é bem semelhante àquela que a elite branca sulafricana direcionava à população negra do país. Portanto, urge que comecemos a tratar o regime sionista do Estado israelense como um regime de apartheid, onde os únicos cidadãos com direitos plenos são judeus (e judeus brancos/europeus, vide a última crise envolvendo judeus etíopes, discriminados em Israel). É necessário que vejamos que estamos diante de uma questão étnico-racial de intenção colonizadora: o árabe, bárbaro e incivilizado, é menor do que o judeu, branco e ocidentalizado. E, como à época do apartheid da África do Sul, usar a pressão política internacional para mudar a situação.

As ações do movimento baseiam-se em estruturar um boicote comercial, cultural, intelectual e político contra o Estado de Israel até que 1- se acabe a ocupação e a colonização de todas as terras árabes ocupadas em junho de 1967; 2- se reconheça os direitos fundamentais dos cidadãos árabes-palestinos no mesmo nível dos direitos fundamentais dos cidadãos judeus-israelenses; 3- que o direito dos árabes-palestinos expulsos de suas terras e casas ilegalmente seja protegido, respeitado e incentivado, como estipulado pela resolução 194 da ONU. Incendiário, né?

Dois de nossos artistas mais conceituados, Caetano Veloso e Gilberto Gil, são dos que acreditam que há como se relativizar a postura do Estado e da sociedade israelenses perante os palestinos. Caetano, justificando sua posição, primeiro diz que não conseguia ver “preto-no-branco” (o uso da expressão parece espontâneo, mas infeliz) um sistema de apartheid na Palestina como houve na África do Sul. De fato, não há registros de caças F-14 bombardeando civis, adultxs e crianças, em Soweto. O apartheid israelense, colonizador, se dá ao privilégio de ser bem menos sutil em sua guerra étnica.

Caetano argumenta depois que “tocou nos EUA de Bush, o que não quer dizer que apoiou a invasão do Iraque”. Há, no mínimo, má fé na afirmação. Mas se os artifícios retóricos são permitidos, me permito imaginar um mundo que tivesse peito o suficiente para clamar por um boicote aos EUA à época dos movimentos pelos direitos civis. Se Martin Luther King ou Malcom X houvessem colocado em moção um movimento de boicote ao seu país, teria Caetano furado o boicote aos EUA?

Mas os mundos hipotéticos são outro privilégio daqueles que não são violentados diariamente pela realidade. Todxs nós, eventualmente, descobrimos pertencer a contragosto a estruturas carcomidas pelo que de pior existe nesse mundo. Nós, aqui, também guetizamos favelas, criminalizamos etnias, excluímos e exterminamos todxs aquelxs que não passam nos projetos do futuro. É menos uma questão de classe que uma questão simbólica: quem consideramos descartáveis, quem consideramos invisíveis, quem consideramos removíveis. Se ainda nos falta sensibilidade para perceber algo ao qual reservamos a distância de um oceano e um continente, quanto faltará para que vejamos que nós, também, somos algozes?

Faça um teste definitivo sobre o apartheid, Caetano. Denuncie-o em Tel Aviv, e veja as reações. Diga que o enoja que Israel aja de maneira tão unilateral e brutal com os palestinos, e que compete às pessoas que assistem seu show, cidadãos israelenses, mudar essa realidade. E aí escreva contando como a presença da sua música tem, de fato, um poder maior de mudar a situação do que aderir ao boicote. Se você conseguir sair livre de Israel depois de dizer isso, claro.

Enquanto isso, Gaza agoniza.

“Eu tenho o privilégio de não ter nenhuma ciência dos meus próprios privilégios.”

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