A medicina que não cura

Há décadas atrás, vimos acontecer a revolução do Prozac. Seu surgimento (apelidado carinhosamente de happy pills) causou frisson no mercado de medicamentos destinados a tratar condições psiquiátricas. Era a primeira vez, em 1986, que um medicamento arquitetado para combater os sintomas clínicos da depressão causava tão poucos efeitos colaterais. Os tratamentos anteriores (que incluem no arcabouço terapêutico da psiquiatria métodos como choques elétricos, mutilação cerebral, tortura e pílulas de lítio, elemento tóxico cujo efeito pode ser causar alucinações) eram extremamente invasivos e humilhantes, e a maioria das vezes mais letais que os sintomas a serem combatidos.

Desde então, houve um boom da terapêutica psiquiátrica. No Brasil, o faturamento com a comercialização desses medicamentos cresceu 138,5% entre 2006 e 2010[1] de acordo com estudo da IMS Health. As cifras sobre as vendas do medicamento cresceram de US$ 271,6 milhões em 2006 para US$ 647,8 milhões em 2010. Nos EUA, maior mercado consumidor mundial de medicamentos psiquiátricos (equivalente a 60% do total mundial), o consumo de antidepressivos em geral dobrou entre 1996 e 2005[2], um mercado que movimenta aproximadamente US$ 10 bilhões ao ano.

Paralelamente (no Brasil, pelo menos desde 1978, com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental), houve uma problematização dos métodos terapêuticos e, em determinada escala, da própria legitimidade do saber psiquiátrico. Todo esse processo político da luta antimanicomial culminou, em 2001, na aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica, que intencionava promover uma desinstitucionalização da loucura, construindo aparatos de cuidado psiquiátrico moldados para a agir como os outros agentes da saúde básica, desospitalizando a saúde mental. CAPS e Hospitais – Dia, dois desses aparatos pensados durante o decorrer da Reforma, se reproduziram pelo país (ainda que atinjam uma parcela consideravelmente pequena – são 2096 Centros de Atenção Psicossocial, entre todas suas formas, no Brasil), mesmo sem a reestruturação completa de todas as instituições manicomiais anteriores (como o Hospital Vera Cruz[3], em Sorocaba-SP).

O raciocínio básico que se faz, se você é dos que entendem que há um fenômeno escondido nessas lógicas expostas acima, é de que estamos medicalizando subjetividades. O DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Desordens Mentais em português), livro básico da psiquiatria, descrevia 106 distúrbios mentais em sua primeira edição de 1952. O DSM-V, quinta edição lançada em maio de 2013, listava 300 distúrbios mentais[4]. No Brasil, já somos mais de 23 milhões diagnosticados com algum tipo de transtorno mental, de acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria. A medicalização de todo e qualquer comportamento supostamente desviante, a despeito das intenções da Reforma Psiquiátrica, caminha a passos largos.

E a indústria farmacêutica não poderia estar mais feliz. Rivotril, Ritalina, Fluoxetina, Amato, Seroquel, Rupinol, todos remédios de uso controlado que aumentam suas vendas (e prescrições) ano após ano. Remédios esses de ação neurológica real (e que muitas vezes que levam à adicção, entre outros efeitos colaterais) prescritos após um processo diagnóstico puramente clínico e subjetivo, onde o psiquiatra atua como o especialista em acertar relações sociais[5] e negocia, junto ao paciente e seu círculo micropolítico, o diagnóstico para o comportamento desviante[6]. A psiquiatria, medicina que adoece mas não cura, se faz instrumento de uma tentativa civilizatória de pasteurização social.

Há que se entender o debate como um debate sobre a própria legitimidade do saber psiquiátrico, além de suas conseqüências políticas, como bem pontuou Paulo Amarante[7]. A Reforma Psiquiátrica humanizou, sim, a rede de atenção psiquiátrica, possibilitando, inclusive, uma rede de atenção básica. Mas o cenário atual da saúde mental carece de questionamentos maiores, que possam explicar e modificar a tendência de crescimento exponencial de legitimidade da autoridade médica e da indústria farmacêutica, e os efeitos de uma sociedade que medicaliza suas relações.

[1]Disponível em < http://fenafar.org.br/portal/medicamentos/62-medicaments/809-as-lucrativas-pilulas-da-felicidade-.html?tmpl=component&print=1&page=> – acessado em 19/05/2015.

[2] Disponível em < http://www6.ensp.fiocruz.br/visa/?q=node/4061> – acessado em 19/05/2015.

[3] Disponível em < http://www.cartacapital.com.br/sociedade/em-extincao-manicomios-podem-voltar-disfarcados-7374.html > – acessado em 19/05/2015.

[4]FERREIRA, Carolina M.B., “Nova edição de manual aumenta número de transtornos mentais” – Ciência e Cultura, vol. 65, n. 4. São Paulo, 2013 – Disponível em <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252013000400008&script=sci_arttext > – acessado em 19/05/2015.

[5] LANGDON, Jean. “A Doença como Experiência: a construção da doença e seu desafio para a prática médica”. – Palestra oferecida na conferência 30 Anos Xingu, Escola Paulista de Medicina, São Paulo, 1995.

[6] BRANCO, Alexandre. “’Mas é só você que vê?’ – A percepção social da loucura e o processo de reconstrução do universo simbólico do sujeito diagnosticado”.  Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, 2013.

[7] AMARANTE, Paulo. “O homem e a serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria”. Rio de Janeiro, Fiocruz, 1996.

Anúncios

Uma resposta para “A medicina que não cura

  1. Pingback: EU BEBI, SIM. ESTOU VIVENDO. Por Geraldo Varjabedian – Revista Lingua de Trapo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s