Carolina

Carolina Maria de Jesus era de Sacramento, Minas Gerais. Seu livro mais conhecido foi “Quarto de Despejo”, diário que escrevia enquanto morava na favela Canindé, em São Paulo (o que nunca lhe agradou muito, queria ser lida para além da miséria). Foi “descoberta” por um jornalista, branco, que ficou impressionado que uma mulher negra e favelada escrevesse tão bem. Carolina é o retrato de barreiras que, mesmo quando rompidas, tendem a reforçar as expectativas que se constroem sobre favelas, pobreza e pessoas pretas. A romantização da pobreza, que cria safáris turísticos na favela e alimenta a compaixão cristã e caridosa de gente branca e rica, ao mesmo tempo em que pereniza o lugar de exclusão dessas pessoas. Essa caridade que emudece o outro e só se interessa por aquilo que quer ouvir. Carolina morreu em 1977, desiludida com o próprio sucesso. Ao menos, dizia ela, conseguiu ter uma casa de alvenaria.
Aqui tem alguns poemas da obra dela, menos conhecidos que seu retrato cru da vida na favela e da vida de fome (que também tem que ser conhecido, mas que não pode se esquecer da Carolina que queria ser uma flor).

    
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”. São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160.
 

§

Quarto de despejo

Quando infiltrei na literatura

Sonhava so com a ventura

Minhalma estava chêia de hianto

Eu nao previa o pranto. Ao publicar o Quarto de Despejo

Concretisava assim o meu desejo.

Que vida. Que alegria.

E agora… Casa de alvenaria.

Outro livro que vae circular

As tristêsas vão duplicar.

Os que pedem para eu auxiliar

A concretisar os teus desejos

Penso: eu devia publicar…

– o ‘Quarto de Despejo’.
No início vêio adimiração

O meu nome circulou a Nação.

Surgiu uma escritora favelada.

Chama: Carolina Maria de Jesus.

E as obras que ela produz
Deixou a humanidade habismada

No início eu fiquei confusa.

Parece que estava oclusa

Num estôjo de marfim.

Eu era solicitada

Era bajulada.

Como um querubim.
Depôis começaram a me invejar.

Dizia: você, deve dar

Os teus bens, para um assilo

Os que assim me falava

Não pensava.

Nos meus filhos.

    

 

§
A Rosa
Eu sou a flor mais formosa

Disse a rosa

Vaidosa!

Sou a musa do poeta.
Por todos su contemplada

E adorada.
A rainha predileta.

Minhas pétalas aveludadas

São perfumadas

E acariciadas.
Que aroma rescendente:

Para que me serve esta essência,

Se a existência

Não me é concernente…
Quando surgem as rajadas

Sou desfolhada

Espalhada

Minha vida é um segundo.

Transitivo é meu viver

De ser…

A flor rainha do mundo.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
§
Dá-me as rosas

No campo em que eu repousar

Solitária e tenebrosa

Eu vos peço para adornar

O meu jazigo com as rosas
As flores são formosas

Aos olhos de um poeta

Dentre todas são as rosas

A minha flor predileta
Se a afeiçoares aos versos inocentes

Que deixo escritos aqui

E quiseres ofertar-me um presente

Dá-me as rosas que pedi
Agradeço-lhe com fervor

Desde já o meu obrigado

Se me levares esta flor

No dia dos finados.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996, p.169
§
Humanidade
Depôis de conhecer a humanidade

suas perversidades

suas ambições

Eu fui envelhecendo

E perdendo

as ilusões

o que predomina é a

maldade

porque a bondade:

Ninguem pratica

Humanidade ambiciosa

E gananciosa

Que quer ficar rica!

Quando eu morrer…

Não quero renascer

é horrivel, suportar a humanidade

Que tem aparência nobre

Que encobre

As pesimas qualidades
Notei que o ente humano

É perverso, é tirano

Egoista interesseiros

Mas trata com cortêzia

Mas tudo é ipocresia

São rudes, e trapaçêiros

– Carolina Maria de Jesus, em “Meu estranho diário”. São Paulo: Xamã, 1996. (grafia original)

Muitas fugiam ao me ver… 
Muitas fugiam ao me ver

Pensando que eu não percebia

Outras pediam pra ler

Os versos que eu escrevia
Era papel que eu catava

Para custear o meu viver

E no lixo eu encontrava livros para ler

Quantas coisas eu quiz fazer

Fui tolhida pelo preconceito

Se eu extinguir quero renascer

Num país que predomina o preto
Adeus! Adeus, eu vou morrer!

E deixo esses versos ao meu país

Se é que temos o direito de renascer

Quero um lugar, onde o preto é feliz.”

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A vida é isso mesmo, e muito mais

Eu vou morrer. 

A bem da verdade, todo mundo vai, de maneira que a minha morte não tem, em si, qualquer importância especial no esquema geral do universo. Mas é só pra mim que essa morte como experiência específica e não como evento abstrato ganha concretude, é só pra mim que ela não pode ser idealizada como passagem ou transição, e é só em mim que se sente a imanência do meu próprio fim (és tudo pra ti, pois é a ti que te sentes, diria o português).

Posso morrer do coração, causa mortis banal e corriqueira. Basta que em uma das veias ou artérias que afogam e desafogam o coração (ou metade de uma, dado um certo espaço de tempo) se deposite um apanhado de algumas das gorduras ou do cálcio que ingeri durante a vida. Existem gorduras de dois tipos (quiséramos fossem só dois, mas como esse não é um texto acadêmico sobre biologia, me concedo a licença). As do primeiro tipo vêm das permissões que fiz a mim mesmo, das micro-alegrias culinárias, do arrefecer dos parâmetros e da auto-exigência. As do segundo tipo vêm  da culpa por tudo isso, e da culpa por tudo além disso; vêm do desgosto, da contrariedade, da saudade e da excitação. Tudo ali, naquele êmbolo fatal que me apaga as luzes.

Posso morrer dos pulmões, também populares ceifadores dos sujeitos a quem antes garantiam alento. Basta que os cigarros que fumei, ou a fumaça dos carros e caminhões que por mim passaram (ou até os cigarros que não fumei e os carros e caminhões que passaram longe de mim!) lentamente aliciem meus pulmões, como me castigando por escolher não respirar. Basta que os compostos mutagênicos presentes no ar (qualquer ar) seduzam meu DNA e o convença de que ele se daria muito melhor sendo ele mesmo, e não um arremedo condenado a existir em relação de submissão a um coletivo opressor e homogeneizador, guiado por uma vontade alheia à dele próprio (será alheia?). O câncer é a liberdade do DNA das minhas células pulmonares, antes coagido a cumprir as expectativas externas investidas nele. A célula se liberta de mim para ser qualquer coisa diferente do que é, e não o que esperavam que ela fosse, ainda que isso signifique o nosso suposto fim conjunto. 

Posso morrer do fígado, suposto responsável por retirar aquilo que eu, advertida ou inadvertidamente, tento assimilar a mim mesmo (e que não é assimilável, como posso não saber?). Posso desgastá-lo pela minha insistência em ir ter com o álcool, pela teimosia em chamar a gordura à baila, pela obsessão com anti-inflamatórios, antidepressivos, barbitúricos, analgésicos…

Chega uma hora que tudo chega. Ao corporificar minha existência, a matéria que me compõe deixa de ser de maneira plena qualquer outra coisa que pudesse ser (e que seria, invariavelmente, se eu não existisse enquanto eu mesmo), ao mesmo tempo em que continua podendo ser uma infinidade de coisas além de mim (e o que é você, a decisão de fumar ou o câncer de pulmão?). O devir está sempre contido no ser, e nós somos o que fomos, o que somos, o que seremos e o que não pudemos ser, simultaneamente. Cada parte de você, se é que podemos chamar você de você a essa altura, está contida no seu todo apenas por um lado de sua própria existência, enquanto todos os outros lhe escapam. A vida é sempre apenas uma das possibilidades.

Não me assusta morrer, embora eu queira ficar vivo (privilégios da matéria dotada de intenção). No fim de tudo, a morte é o excesso de vida, e não é de uma vez que se morre, diria Mário Quintana (todas as horas são extremas!). Se morre do acúmulo de experiências de todos os tipos de ordem e nível. Se morre pelo excesso de nós mesmos, pelo excesso do que fomos. Se morre também pelo excesso do que podemos ser, pela multiplicidade infinita de variações que aquilo que nos compõe (seja de qual ordem for) é capaz de produzir. Lógico, as mortes violentas sempre estão em pauta, e o imponderável caminha ao nosso lado ao longo de toda vida. Mas qual morte é pacífica? E o que é ponderável, para que se chame imponderável qualquer coisa específica? 

A matéria se libertará de nós, e não o contrário. “Nós” somos diques que represam por um instante (único, peculiar, instigante) aquilo que poderia ser, e eventualmente será, qualquer coisa além de nós. A morte é banal, a vida não. É a coisa mais maluca que jamais veremos.

2017

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte.
Porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte.
E tenho comigo pensado “deus é brasileiro, e anda do meu lado”
E, assim, já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

 

bsbazul

 

Quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo, afasto o que não conheço

E quem vem de outro sonho feliz de cidade aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso…

Sigo en pie*

*Mario Benedetti

 

 

Sigo em pie por amor, por cosas mías
Con buena edad para cambiar, sereno,
Para enfrentarme ante el espejo, ameno
Y entrar a averiguar mis alegrías

Sigo en pie por razones, por mis guías,
Por decirme que el mundo no es ajeno
Y que no hay que pedir un vistobueno
Para uno celebrar sus cumpledías

Los versos tienen hoy los ojos fijos,
Los sueños el gemidos de otros sueños,
Las palabras de amor, nuevos prefijos,

Los latidos suenan de otra manera,
Pero no te preocupes de estos dueños
porque yo sigo em pie hasta que muera.

Sobre empatia

Eu imaginava começar esse texto com “há um ano, Israel iniciava seu bombardeio intensivo a uma cidade sitiada, isolada e parcamente armada, de população majoritariamente civil”. Mas expor o problema dessa forma seria amputá-lo de sua real dimensão – afinal, bombardeios e ataques têm completado aniversários na Palestina desde 1948, e até antes, se você considerar os grupos terroristas judeus (como o Hanagá e o Irgun). Eles se incumbiam de abrir caminho para o sionismo antes mesmo da fundação do Estado de Israel, matando e expulsando árabes de suas terras (mesmo que fossem árabes-judeus), e posteriormente dominariam a política israelense através do Likud, partido da direita israelense.

A operação “Margem de Segurança”, de 2014, durou 50 dias, e expôs numa escala inédita o sadismo israelense. A repercussão do número de civis palestinos mortos, 2.150, e em especial o de crianças mortas, 550, foi impossível de ser contida por qualquer lobby sionista. As redes sociais se inundaram com fotos e vídeos, declarações de solidariedade, pedidos de explicação à Israel, obviamente ignorados e respondidos com tergiversações. Grupos midiáticos notoriamente influenciados por lobbys sionistas não puderam deixar de mostrar o desequilíbrio monstruoso do número de mortos palestinos e israelenses (especialmente os civis), nem a frieza da sociedade israelense, que municiava-se de cadeiras de praia para assistir – e comemorar – enquanto a Força Aérea Israelense fazia bombas choverem sobre a Cidade de Gaza. Foi o maior massacre desde 1967, quando da Guerra dos Seis Dias.

A cidade, de onde ninguém entra ou sai há 8 anos (nem mesmo comboios de ajuda humanitária), teve 38 mil moradias severamente danificadas e 17 mil destruídas, deixando 100 mil pessoas desabrigadas. 216 escolas foram total ou completamente destruídas, e 58 hospitais ou postos de saúde derrubados ou atingidos parcialmente por bombardeios (apenas um hospital funciona em Gaza atualmente, atendendo a uma população de 1,8 milhão de pessoas). Além disso, a única usina de energia de Gaza foi severamente danificada pelo exército israelense, deixando a cidade no escuro. Sem comida, teto, luz, atendimento médico, remédios, sem dignidade, a Faixa de Gaza se transformou, ao longo do nosso período de vida, no maior campo de concentração da história da humanidade. Porque escolas e hospitais estavam na linha de tiro das Forças de Defesa Israelenses? Você pode usar as explicações oficiais ou o depoimento de ex-soldados israelenses para responder.

Escola em Gaza

Manar, de 11 anos, e colegas da escola. A volta às em Gaza seis meses após os bombardeios. (Foto: Anas al Baba/OXFAM, Janeiro de 2015)

O absurdo de 2014 ainda continua visível, seja através das práticas do governo e da sociedade israelenses, seja através do rastro de destruição deixado em Gaza e ainda não apagado. A reconstrução caminha a passos de tartaruga, e a empatia internacional despertada à época, desapareceu.  Após a comunidade internacional ter condenado veementemente a truculência de Israel nos ataques, prometeu-se uma ajuda financeira equivalente a US$ 3 bilhões. Um ano depois, apenas 30% dessa ajuda foi efetivamente doada, segundo a UNRWA (Agência das Nações Unidas para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo). Máquinas e ajuda humanitária são constantemente impedidos por Israel de entrar, como dissemos acima.

Somos tão cínicos que boicotamos o Hamas (e a população de Gaza, em consequência), e nada fazemos quando Benjamin Netanyahu, o executor desse e de outros massacres, é reeleito em Israel junto a correligionários que advogam a extinção do povo árabe-palestino. Mais: prometemos ajudar os palestinos a reconstruir suas vidas após devastação israelense apenas como estratégia de relações públicas. Somos tão hipócritas, que fechamos os olhos para os desmandos colonizadores dos israelenses sob a justificativa de que eles elegeram representantes com os quais não queremos dialogar (e já fazíamos antes mesmo da eleição do Hamas). Somos repulsivos a ponto de negar a influência que temos no tempo histórico presente para influenciar nessa situação (muitas vezes negando a sua existência), dando de ombros para o que fazemos com qualquer população que consideramos “removíveis, silenciosas e politicamente neutras” (SAID, Edward, 1992). Neutras até estarem em nosso caminho.

“Mate todos os árabes”, pichação feita por colonos judeus no portão da garagem de uma família árabe em Al-Khalil/Hebron

Um bom exemplo disso é o quão pequena é a adesão à campanha de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel em terras tupiniquins. A maioria, na realidade, não faz ideia do que se trata, ou, se faz, acha “desproporcional”. A campanha, cujas articulações políticas começaram a ser feitas em 2002, parte de um pressuposto muito simples: a intenção colonizadora e genocida de Israel direcionada à população árabe é bem semelhante àquela que a elite branca sulafricana direcionava à população negra do país. Portanto, urge que comecemos a tratar o regime sionista do Estado israelense como um regime de apartheid, onde os únicos cidadãos com direitos plenos são judeus (e judeus brancos/europeus, vide a última crise envolvendo judeus etíopes, discriminados em Israel). É necessário que vejamos que estamos diante de uma questão étnico-racial de intenção colonizadora: o árabe, bárbaro e incivilizado, é menor do que o judeu, branco e ocidentalizado. E, como à época do apartheid da África do Sul, usar a pressão política internacional para mudar a situação.

As ações do movimento baseiam-se em estruturar um boicote comercial, cultural, intelectual e político contra o Estado de Israel até que 1- se acabe a ocupação e a colonização de todas as terras árabes ocupadas em junho de 1967; 2- se reconheça os direitos fundamentais dos cidadãos árabes-palestinos no mesmo nível dos direitos fundamentais dos cidadãos judeus-israelenses; 3- que o direito dos árabes-palestinos expulsos de suas terras e casas ilegalmente seja protegido, respeitado e incentivado, como estipulado pela resolução 194 da ONU. Incendiário, né?

Dois de nossos artistas mais conceituados, Caetano Veloso e Gilberto Gil, são dos que acreditam que há como se relativizar a postura do Estado e da sociedade israelenses perante os palestinos. Caetano, justificando sua posição, primeiro diz que não conseguia ver “preto-no-branco” (o uso da expressão parece espontâneo, mas infeliz) um sistema de apartheid na Palestina como houve na África do Sul. De fato, não há registros de caças F-14 bombardeando civis, adultxs e crianças, em Soweto. O apartheid israelense, colonizador, se dá ao privilégio de ser bem menos sutil em sua guerra étnica.

Caetano argumenta depois que “tocou nos EUA de Bush, o que não quer dizer que apoiou a invasão do Iraque”. Há, no mínimo, má fé na afirmação. Mas se os artifícios retóricos são permitidos, me permito imaginar um mundo que tivesse peito o suficiente para clamar por um boicote aos EUA à época dos movimentos pelos direitos civis. Se Martin Luther King ou Malcom X houvessem colocado em moção um movimento de boicote ao seu país, teria Caetano furado o boicote aos EUA?

Mas os mundos hipotéticos são outro privilégio daqueles que não são violentados diariamente pela realidade. Todxs nós, eventualmente, descobrimos pertencer a contragosto a estruturas carcomidas pelo que de pior existe nesse mundo. Nós, aqui, também guetizamos favelas, criminalizamos etnias, excluímos e exterminamos todxs aquelxs que não passam nos projetos do futuro. É menos uma questão de classe que uma questão simbólica: quem consideramos descartáveis, quem consideramos invisíveis, quem consideramos removíveis. Se ainda nos falta sensibilidade para perceber algo ao qual reservamos a distância de um oceano e um continente, quanto faltará para que vejamos que nós, também, somos algozes?

Faça um teste definitivo sobre o apartheid, Caetano. Denuncie-o em Tel Aviv, e veja as reações. Diga que o enoja que Israel aja de maneira tão unilateral e brutal com os palestinos, e que compete às pessoas que assistem seu show, cidadãos israelenses, mudar essa realidade. E aí escreva contando como a presença da sua música tem, de fato, um poder maior de mudar a situação do que aderir ao boicote. Se você conseguir sair livre de Israel depois de dizer isso, claro.

Enquanto isso, Gaza agoniza.

“Eu tenho o privilégio de não ter nenhuma ciência dos meus próprios privilégios.”

O céu dos suicidas

“Não sei se entendiam. As pessoas que não conseguem parar de puxar os cabelos, aqueles que ferem os próprios braços com um canivete, essa gente que um dia ninguém suporta mais, os que se isolaram, os doidos que não param de falar sozinhos, que deixaram de compreender, aqueles que não sabem mais nada estavam como eu: ali, naquela capela feia, olhando a garota que tinha acabado de perder a avó e acha que essa dor tão profunda nunca vai passar. Como todos nós um dia, e eles a vida inteira.

Ricardo Lísias, O céu dos suicidas.