2017

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte.
Porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte.
E tenho comigo pensado “deus é brasileiro, e anda do meu lado”
E, assim, já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

 

bsbazul

 

Quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo, afasto o que não conheço

E quem vem de outro sonho feliz de cidade aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso…

Sigo en pie*

*Mario Benedetti

 

 

Sigo em pie por amor, por cosas mías
Con buena edad para cambiar, sereno,
Para enfrentarme ante el espejo, ameno
Y entrar a averiguar mis alegrías

Sigo en pie por razones, por mis guías,
Por decirme que el mundo no es ajeno
Y que no hay que pedir un vistobueno
Para uno celebrar sus cumpledías

Los versos tienen hoy los ojos fijos,
Los sueños el gemidos de otros sueños,
Las palabras de amor, nuevos prefijos,

Los latidos suenan de otra manera,
Pero no te preocupes de estos dueños
porque yo sigo em pie hasta que muera.

Sobre empatia

Eu imaginava começar esse texto com “há um ano, Israel iniciava seu bombardeio intensivo a uma cidade sitiada, isolada e parcamente armada, de população majoritariamente civil”. Mas expor o problema dessa forma seria amputá-lo de sua real dimensão – afinal, bombardeios e ataques têm completado aniversários na Palestina desde 1948, e até antes, se você considerar os grupos terroristas judeus (como o Hanagá e o Irgun). Eles se incumbiam de abrir caminho para o sionismo antes mesmo da fundação do Estado de Israel, matando e expulsando árabes de suas terras (mesmo que fossem árabes-judeus), e posteriormente dominariam a política israelense através do Likud, partido da direita israelense.

A operação “Margem de Segurança”, de 2014, durou 50 dias, e expôs numa escala inédita o sadismo israelense. A repercussão do número de civis palestinos mortos, 2.150, e em especial o de crianças mortas, 550, foi impossível de ser contida por qualquer lobby sionista. As redes sociais se inundaram com fotos e vídeos, declarações de solidariedade, pedidos de explicação à Israel, obviamente ignorados e respondidos com tergiversações. Grupos midiáticos notoriamente influenciados por lobbys sionistas não puderam deixar de mostrar o desequilíbrio monstruoso do número de mortos palestinos e israelenses (especialmente os civis), nem a frieza da sociedade israelense, que municiava-se de cadeiras de praia para assistir – e comemorar – enquanto a Força Aérea Israelense fazia bombas choverem sobre a Cidade de Gaza. Foi o maior massacre desde 1967, quando da Guerra dos Seis Dias.

A cidade, de onde ninguém entra ou sai há 8 anos (nem mesmo comboios de ajuda humanitária), teve 38 mil moradias severamente danificadas e 17 mil destruídas, deixando 100 mil pessoas desabrigadas. 216 escolas foram total ou completamente destruídas, e 58 hospitais ou postos de saúde derrubados ou atingidos parcialmente por bombardeios (apenas um hospital funciona em Gaza atualmente, atendendo a uma população de 1,8 milhão de pessoas). Além disso, a única usina de energia de Gaza foi severamente danificada pelo exército israelense, deixando a cidade no escuro. Sem comida, teto, luz, atendimento médico, remédios, sem dignidade, a Faixa de Gaza se transformou, ao longo do nosso período de vida, no maior campo de concentração da história da humanidade. Porque escolas e hospitais estavam na linha de tiro das Forças de Defesa Israelenses? Você pode usar as explicações oficiais ou o depoimento de ex-soldados israelenses para responder.

Escola em Gaza

Manar, de 11 anos, e colegas da escola. A volta às em Gaza seis meses após os bombardeios. (Foto: Anas al Baba/OXFAM, Janeiro de 2015)

O absurdo de 2014 ainda continua visível, seja através das práticas do governo e da sociedade israelenses, seja através do rastro de destruição deixado em Gaza e ainda não apagado. A reconstrução caminha a passos de tartaruga, e a empatia internacional despertada à época, desapareceu.  Após a comunidade internacional ter condenado veementemente a truculência de Israel nos ataques, prometeu-se uma ajuda financeira equivalente a US$ 3 bilhões. Um ano depois, apenas 30% dessa ajuda foi efetivamente doada, segundo a UNRWA (Agência das Nações Unidas para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo). Máquinas e ajuda humanitária são constantemente impedidos por Israel de entrar, como dissemos acima.

Somos tão cínicos que boicotamos o Hamas (e a população de Gaza, em consequência), e nada fazemos quando Benjamin Netanyahu, o executor desse e de outros massacres, é reeleito em Israel junto a correligionários que advogam a extinção do povo árabe-palestino. Mais: prometemos ajudar os palestinos a reconstruir suas vidas após devastação israelense apenas como estratégia de relações públicas. Somos tão hipócritas, que fechamos os olhos para os desmandos colonizadores dos israelenses sob a justificativa de que eles elegeram representantes com os quais não queremos dialogar (e já fazíamos antes mesmo da eleição do Hamas). Somos repulsivos a ponto de negar a influência que temos no tempo histórico presente para influenciar nessa situação (muitas vezes negando a sua existência), dando de ombros para o que fazemos com qualquer população que consideramos “removíveis, silenciosas e politicamente neutras” (SAID, Edward, 1992). Neutras até estarem em nosso caminho.

“Mate todos os árabes”, pichação feita por colonos judeus no portão da garagem de uma família árabe em Al-Khalil/Hebron

Um bom exemplo disso é o quão pequena é a adesão à campanha de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel em terras tupiniquins. A maioria, na realidade, não faz ideia do que se trata, ou, se faz, acha “desproporcional”. A campanha, cujas articulações políticas começaram a ser feitas em 2002, parte de um pressuposto muito simples: a intenção colonizadora e genocida de Israel direcionada à população árabe é bem semelhante àquela que a elite branca sulafricana direcionava à população negra do país. Portanto, urge que comecemos a tratar o regime sionista do Estado israelense como um regime de apartheid, onde os únicos cidadãos com direitos plenos são judeus (e judeus brancos/europeus, vide a última crise envolvendo judeus etíopes, discriminados em Israel). É necessário que vejamos que estamos diante de uma questão étnico-racial de intenção colonizadora: o árabe, bárbaro e incivilizado, é menor do que o judeu, branco e ocidentalizado. E, como à época do apartheid da África do Sul, usar a pressão política internacional para mudar a situação.

As ações do movimento baseiam-se em estruturar um boicote comercial, cultural, intelectual e político contra o Estado de Israel até que 1- se acabe a ocupação e a colonização de todas as terras árabes ocupadas em junho de 1967; 2- se reconheça os direitos fundamentais dos cidadãos árabes-palestinos no mesmo nível dos direitos fundamentais dos cidadãos judeus-israelenses; 3- que o direito dos árabes-palestinos expulsos de suas terras e casas ilegalmente seja protegido, respeitado e incentivado, como estipulado pela resolução 194 da ONU. Incendiário, né?

Dois de nossos artistas mais conceituados, Caetano Veloso e Gilberto Gil, são dos que acreditam que há como se relativizar a postura do Estado e da sociedade israelenses perante os palestinos. Caetano, justificando sua posição, primeiro diz que não conseguia ver “preto-no-branco” (o uso da expressão parece espontâneo, mas infeliz) um sistema de apartheid na Palestina como houve na África do Sul. De fato, não há registros de caças F-14 bombardeando civis, adultxs e crianças, em Soweto. O apartheid israelense, colonizador, se dá ao privilégio de ser bem menos sutil em sua guerra étnica.

Caetano argumenta depois que “tocou nos EUA de Bush, o que não quer dizer que apoiou a invasão do Iraque”. Há, no mínimo, má fé na afirmação. Mas se os artifícios retóricos são permitidos, me permito imaginar um mundo que tivesse peito o suficiente para clamar por um boicote aos EUA à época dos movimentos pelos direitos civis. Se Martin Luther King ou Malcom X houvessem colocado em moção um movimento de boicote ao seu país, teria Caetano furado o boicote aos EUA?

Mas os mundos hipotéticos são outro privilégio daqueles que não são violentados diariamente pela realidade. Todxs nós, eventualmente, descobrimos pertencer a contragosto a estruturas carcomidas pelo que de pior existe nesse mundo. Nós, aqui, também guetizamos favelas, criminalizamos etnias, excluímos e exterminamos todxs aquelxs que não passam nos projetos do futuro. É menos uma questão de classe que uma questão simbólica: quem consideramos descartáveis, quem consideramos invisíveis, quem consideramos removíveis. Se ainda nos falta sensibilidade para perceber algo ao qual reservamos a distância de um oceano e um continente, quanto faltará para que vejamos que nós, também, somos algozes?

Faça um teste definitivo sobre o apartheid, Caetano. Denuncie-o em Tel Aviv, e veja as reações. Diga que o enoja que Israel aja de maneira tão unilateral e brutal com os palestinos, e que compete às pessoas que assistem seu show, cidadãos israelenses, mudar essa realidade. E aí escreva contando como a presença da sua música tem, de fato, um poder maior de mudar a situação do que aderir ao boicote. Se você conseguir sair livre de Israel depois de dizer isso, claro.

Enquanto isso, Gaza agoniza.

“Eu tenho o privilégio de não ter nenhuma ciência dos meus próprios privilégios.”

O céu dos suicidas

“Não sei se entendiam. As pessoas que não conseguem parar de puxar os cabelos, aqueles que ferem os próprios braços com um canivete, essa gente que um dia ninguém suporta mais, os que se isolaram, os doidos que não param de falar sozinhos, que deixaram de compreender, aqueles que não sabem mais nada estavam como eu: ali, naquela capela feia, olhando a garota que tinha acabado de perder a avó e acha que essa dor tão profunda nunca vai passar. Como todos nós um dia, e eles a vida inteira.

Ricardo Lísias, O céu dos suicidas.

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Por tanto amor, por tanta emoção
a vida me fez assim: doce ou atroz, manso ou feroz.
Eu, caçador de mim.

Preso a canções, entregue a paixões
que nunca tiveram fim.
Vou me encontrar longe do meu lugar.
Eu, caçador de mim

Nada a temer, senão o correr da luta.
Nada a fazer, senão esquecer o medo.
Abrir o peito a força, numa procura.
Fugir às armadilhas da mata escura.

Longe se vai sonhando demais,
mas onde se chega assim?
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

A medicina que não cura

Há décadas atrás, vimos acontecer a revolução do Prozac. Seu surgimento (apelidado carinhosamente de happy pills) causou frisson no mercado de medicamentos destinados a tratar condições psiquiátricas. Era a primeira vez, em 1986, que um medicamento arquitetado para combater os sintomas clínicos da depressão causava tão poucos efeitos colaterais. Os tratamentos anteriores (que incluem no arcabouço terapêutico da psiquiatria métodos como choques elétricos, mutilação cerebral, tortura e pílulas de lítio, elemento tóxico cujo efeito pode ser causar alucinações) eram extremamente invasivos e humilhantes, e a maioria das vezes mais letais que os sintomas a serem combatidos.

Desde então, houve um boom da terapêutica psiquiátrica. No Brasil, o faturamento com a comercialização desses medicamentos cresceu 138,5% entre 2006 e 2010[1] de acordo com estudo da IMS Health. As cifras sobre as vendas do medicamento cresceram de US$ 271,6 milhões em 2006 para US$ 647,8 milhões em 2010. Nos EUA, maior mercado consumidor mundial de medicamentos psiquiátricos (equivalente a 60% do total mundial), o consumo de antidepressivos em geral dobrou entre 1996 e 2005[2], um mercado que movimenta aproximadamente US$ 10 bilhões ao ano.

Paralelamente (no Brasil, pelo menos desde 1978, com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental), houve uma problematização dos métodos terapêuticos e, em determinada escala, da própria legitimidade do saber psiquiátrico. Todo esse processo político da luta antimanicomial culminou, em 2001, na aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica, que intencionava promover uma desinstitucionalização da loucura, construindo aparatos de cuidado psiquiátrico moldados para a agir como os outros agentes da saúde básica, desospitalizando a saúde mental. CAPS e Hospitais – Dia, dois desses aparatos pensados durante o decorrer da Reforma, se reproduziram pelo país (ainda que atinjam uma parcela consideravelmente pequena – são 2096 Centros de Atenção Psicossocial, entre todas suas formas, no Brasil), mesmo sem a reestruturação completa de todas as instituições manicomiais anteriores (como o Hospital Vera Cruz[3], em Sorocaba-SP).

O raciocínio básico que se faz, se você é dos que entendem que há um fenômeno escondido nessas lógicas expostas acima, é de que estamos medicalizando subjetividades. O DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Desordens Mentais em português), livro básico da psiquiatria, descrevia 106 distúrbios mentais em sua primeira edição de 1952. O DSM-V, quinta edição lançada em maio de 2013, listava 300 distúrbios mentais[4]. No Brasil, já somos mais de 23 milhões diagnosticados com algum tipo de transtorno mental, de acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria. A medicalização de todo e qualquer comportamento supostamente desviante, a despeito das intenções da Reforma Psiquiátrica, caminha a passos largos.

E a indústria farmacêutica não poderia estar mais feliz. Rivotril, Ritalina, Fluoxetina, Amato, Seroquel, Rupinol, todos remédios de uso controlado que aumentam suas vendas (e prescrições) ano após ano. Remédios esses de ação neurológica real (e que muitas vezes que levam à adicção, entre outros efeitos colaterais) prescritos após um processo diagnóstico puramente clínico e subjetivo, onde o psiquiatra atua como o especialista em acertar relações sociais[5] e negocia, junto ao paciente e seu círculo micropolítico, o diagnóstico para o comportamento desviante[6]. A psiquiatria, medicina que adoece mas não cura, se faz instrumento de uma tentativa civilizatória de pasteurização social.

Há que se entender o debate como um debate sobre a própria legitimidade do saber psiquiátrico, além de suas conseqüências políticas, como bem pontuou Paulo Amarante[7]. A Reforma Psiquiátrica humanizou, sim, a rede de atenção psiquiátrica, possibilitando, inclusive, uma rede de atenção básica. Mas o cenário atual da saúde mental carece de questionamentos maiores, que possam explicar e modificar a tendência de crescimento exponencial de legitimidade da autoridade médica e da indústria farmacêutica, e os efeitos de uma sociedade que medicaliza suas relações.

[1]Disponível em < http://fenafar.org.br/portal/medicamentos/62-medicaments/809-as-lucrativas-pilulas-da-felicidade-.html?tmpl=component&print=1&page=> – acessado em 19/05/2015.

[2] Disponível em < http://www6.ensp.fiocruz.br/visa/?q=node/4061> – acessado em 19/05/2015.

[3] Disponível em < http://www.cartacapital.com.br/sociedade/em-extincao-manicomios-podem-voltar-disfarcados-7374.html > – acessado em 19/05/2015.

[4]FERREIRA, Carolina M.B., “Nova edição de manual aumenta número de transtornos mentais” – Ciência e Cultura, vol. 65, n. 4. São Paulo, 2013 – Disponível em <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252013000400008&script=sci_arttext > – acessado em 19/05/2015.

[5] LANGDON, Jean. “A Doença como Experiência: a construção da doença e seu desafio para a prática médica”. – Palestra oferecida na conferência 30 Anos Xingu, Escola Paulista de Medicina, São Paulo, 1995.

[6] BRANCO, Alexandre. “’Mas é só você que vê?’ – A percepção social da loucura e o processo de reconstrução do universo simbólico do sujeito diagnosticado”.  Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, 2013.

[7] AMARANTE, Paulo. “O homem e a serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria”. Rio de Janeiro, Fiocruz, 1996.